Medicina para viagem

Foto: Freedigitalphotos.net

Foto: Freedigitalphotos.net

As viagens nos tiram de casa. A trabalho ou lazer, deixamos o ambiente a que estamos acostumados. Há lugares em que a temperatura, altitude e umidade são muito diferentes daquelas que nos são familiares. No mar ou na montanha, nos desertos, florestas ou na neve, ficamos expostos a estímulos e riscos que, muitas vezes, desconhecemos ou subestimamos.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que mais de 900 milhões de viagens internacionais são realizadas todos os anos. Em países continentais como o Brasil, mesmo as viagens internas podem nos levar a ambientes muito diferentes. Em todas elas, o viajante pode se deparar com condições que põem em risco sua saúde.

A proposta deste trabalho é discutir algumas medidas que podem ser tomadas antes da viagem para prevenir esses riscos, assim como oferecer informações básicas sobre como lidar com os problemas que por acaso aconteçam durante esse período. São informações úteis para pessoas sem problemas de saúde, mas que podem interessar também aos portadores de doenças crônicas. Diabéticos, hipertensos, cardiopatas, dependentes de oxigênio e até pacientes com insuficiência renal crônica que necessitam de hemodiálise podem viajar, basta saber como cercar-se dos cuidados necessários.

DESIDRATAÇÃO e INSOLAÇÃO

Quando nos expomos ao sol e a altas temperaturas, corremos o risco de desenvolver um episódio de desidratação ou insolação. Esse risco é maior nas praias, nas florestas, mas está presente também em desertos, ambientes secos e com temperaturas muito elevadas durante o dia.

a) Desidratação

No calor e sob atividade física, transpiramos mais para manter a temperatura corporal estável. A desidratação se instala quando a quantidade relativa de água no corpo se torna insuficiente.

A perda de água corporal ocorre tanto pela sudorese aumentada, como pela expiração. Esse efeito é maior em situações de grande gasto energético. A redução relativa da água corporal dificulta o funcionamento normal do organismo, porque algumas reações enzimáticas são alteradas. A frequência cardíaca fica mais elevada e, em casos mais graves, a pressão arterial pode cair bastante. Como consequência, os tecidos deixam de receber o aporte adequado de sangue.

Os sintomas iniciais de desidratação são cansaço e dor de cabeça. À medida que a desidratação progride, sentimos sede. Depois podem aparecer tonturas, náuseas e sudorese excessiva.

b) Insolação

Insolação é consequência da desidratação extrema. A pessoa perde a capacidade de resfriar o corpo, a temperatura central aumenta e ela para de suar (sinal de alerta). Simultaneamente, ocorre a alteração da consciência (a pessoa pode ficar sonolenta) e do comportamento (confusão). Nessa situação, todos os órgãos podem entrar em sofrimento, especialmente o cérebro, os rins e o coração.

A insolação é resultado do aumento de temperatura e não necessariamente da exposição ao sol; portanto, o uso de protetor solar não impede seu aparecimento.

c) Prevenção

Sempre que estivermos expostos ao calor e ao sol, devemos nos hidratar com regularidade e frequência. Crianças, idosos ou pessoas com dificuldade de comunicação merecem atenção especial, porque podem não expressar adequadamente a sensação de sede ou calor. Se não houver contraindicação, ofereça líquidos regularmente às pessoas mais vulneráveis.

Além disso, proteger-se sob uma sombra natural ou guarda-sol (ou tendas ventiladas) pode ser outra medida útil. Se possível, deve-se evitar exposição ao sol nos horários de maior temperatura (entre 10 e 16 horas). Recomenda-se também não realizar atividades físicas extenuantes, principalmente nesse período.

d) Tratamento

O tratamento da desidratação é, obviamente, hidratar-se. Não é preciso oferecer grandes quantidades de líquido de uma vez – pequenas quantidades em intervalos menores de tempo podem ser mais fáceis de administrar. Não há preferência quanto ao tipo de bebida, desde que não contenha álcool. Água potável e fresca ajuda bastante nesses casos.

Nos episódios de insolação, o importante é resfriar o corpo. Tire a pessoa do sol e calor e ofereça-lhe líquidos frescos em abundância (evitar bebidas alcoólicas). Faça-a descansar e providencie uma banheira com água fria (não gelada) para ajudar no resfriamento. Em casos graves, pode ser necessário encaminhar a pessoa para atendimento hospitalar.

O QUE LEVAR NAS VIAGENS

Assim como preparamos nossas malas, com bastante cuidad atenção para não deixar para trás alguma coisa que nos faça falta, devemos nos preocupar em levar conosco um conjunto de produtos para a saúde que pode ser de fundamental importância durante a viagem.

Há lugares em que o acesso às farmácias ou aos serviços de saúde é difícil. Ter à mão alguns medicamentos pode fazer uma enorme diferença em certos momentos.

CUIDADOS COM A PREVENÇÃO

Prevenir é sempre o mais importante. Para não precisar usar o kit que levou para tratar possíveis problemas, lembre-se do que pode ajudá-lo a evitar que eles apareçam.

Para começar, a higiene é fundamental. Se não for possível lavar as mãos com água e sabão antes de alimentar-se, lembre-se de colocar na bagagem um antisséptico tópico, como álcool gel ou equivalente. Ele também será útil para evitar a transmissão de alguns vírus, como o da influenza (da gripe), por exemplo.

Alguns produtos podem ser utilizados para reduzir o risco de intoxicação por impurezas da água. Existem apresentações comerciais de hipoclorito e/o permanganato de potássio que podem ser adicionados à água que será utilizada para consumo. Essas substâncias podem ser usadas também para a limpeza de frutas, legumes e verduras.

Outro problema comum nos dias quentes é a queimadura por radiação solar. Portanto, não esqueça de levar o protetor adequado e em quantidade suficiente para a viagem.

Usar chapéus, óculos escuros e roupas leves também pode ajudar a prevenir esse tipo de lesão. Algumas roupas confeccionadas com materiais que intensificam o bloqueio dos raios solares são especialmente úteis para os bebês e para as pessoas que toleram mal a ação do sol sobre a pele.

Se você vai viajar para locais em que há muitos mosquitos, leve repelentes. Dependendo do horário, a atividade dos mosquitos é maior. Geralmente, o entardecer é o período mais crítico. Por isso, ponha na bagagem roupas de manga comprida, redes para colocar sobre a cama e até inseticidas.

A profilaxia para malária, doença transmitida pela picada de um mosquito parecido com o pernilongo, não está indicada para todas as pessoas. Por essa razão, você deve informar-se com a autoridade de saúde local sobre a necessidade de utilizá-la, ou não.

Tão logo a pessoa escolha o lugar para onde vai viajar, deve informar-se sobre a importância de tomar certas vacinas. Há regiões no Brasil e em outros países em que prevalecem doenças que requerem imunização prévia. Apesar de o nosso calendário vacinal ser bastante amplo, você deve informar-se sobre a imunização necessária antes de viajar. Há sites sempre atualizados, como os do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde que contêm as informações necessárias.

PESSOAS SEM DOENÇAS CRÔNICAS

Levar os remédios que numa eventualidade a pessoa possa precisar em quantidade adequada pode ser difícil. Entretanto, alguns princípios podem ajudar nessa seleção.

Em primeiro lugar, procure levar medicamentos que tratam os sintomas: antitérmicos, antialérgicos, antieméticos (remédios para náuseas) analgésicos e anti-inflamatórios podem ser úteis na maioria dos casos. Se você não tem uma doença crônica, mas tem um problema que eventualmente aparece – algum tipo de alergia ou enxaqueca, por exemplo – considere a possibilidade de ter consigo um remédio para essas situações. Procure também saber se alguém que viaja com você tem alergia a algum tipo de remédio – é sempre importante contar com uma alternativa.

A depender do lugar que será visitado, considere incluir na bagagem algum tipo de antibiótico e medicações para verminoses. Apesar de as infecções bacterianas não acontecerem com tanta frequência, ter um antibiótico à disposição pode ser extremamente útil até que a pessoa seja avaliada por um profissional. Você pode conversar com seu médico sobre o uso de antibióticos que são usados em mais de uma situação clínica, por exemplo, nas infecções urinárias e sinusite.

Lembre-se também de checar as dosagens pediátricas. Como os remédios para crianças têm doses e apresentações específicas, é importante estar corretamente informado sobre elas.

O uso de bandagens, curativos, pomadas, antissépticos e outros dispositivos e substâncias deve ser considerado de acordo com o local e o tempo de viagem. Pessoas que vão visitar ambientes extremos (altitudes elevadas, desertos, etc.) devem sempre se informar a respeito de cuidados e problemas específicos de saúde que podem aparecer nesses lugares.

PACIENTES COM DOENÇAS CRÔNICAS

Pessoas com doenças crônicas devem levar os medicamentos que utilizam diariamente, em quantidade suficiente e com o prazo de validade adequado. Em alguns países, é muito difícil comprar remédios sem prescrição médica, mesmo aqueles mais simples.

Você pode pedir ao seu médico uma declaração para ser apresentada na chegada, caso seja questionado a respeito do tipos ou quantidade dos medicamentos. Pergunte também (ou consulte a bula) sobre as condições de transporte – alguns remédios necessitam de temperatura e umidade ideais para que se mantenham eficazes.

Algumas doenças crônicas requerem uso esporádico (e não necessariamente diário) de remédios específicos, seja por frequência – como aqueles utilizados semanalmente ou mensalmente – ou porque são utilizados em situações eventuais ou em exacerbações da enfermidade (o caso das crises de asma e de gota, etc). Lembre-se deles também.

Pacientes que utilizam oxigenioterapia contínua precisam informar à companhia aérea ou rodoviária sobre a necessidade do oxigênio. Geralmente, há algumas informações que devem ser passadas para a empresa de transporte, a fim de que providencie boas condições de acomodação do paciente e garanta o uso de oxigênio.

Se você tem uma doença crônica e planeja uma viagem longa, para lugares distantes de grandes centros, ou em que o acesso a médicos ou farmácias pode ser difícil, converse a respeito com seu médico.

 

Fonte: Site Dr. Dráuzio Varella
0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *